sexta-feira, 20 de junho de 2014

Retorno da Porsche a Le Mans

Final de semana passado (14 e 15 de junho) tivemos as 24 Horas de Le Mans, uma das provas mais antigas e tradicionais do automobilismo, e a mais conhecida prova de endurance.

Le Mans é tão tradicional no automobilismo que devemos a ela o lance de estourar a champagne no final das corridas (o banho de champagne foi “criado” por Jo Siffert na Le Mans de 66), o lance da ignição do lado esquerdo nos Porsches, a antiga “largada Le Mans” em que carros e pilotos ficavam em lados diferentes da pista, as chaves perfuradas da Porsche (e do Fusca!!!), dentre inúmeras outras coisas.

Veja abaixo uma das influências da Le Mans no automobilismo:

(Senna dando banho de champagne na Família Real após sua primeira vitória no GP de Mônaco em 1987)

E as 24 Horas de Le Mans deste ano foram marcadas pelo retorno da Porsche, que será lembrado historicamente no futuro – escrevam isso.

Se atualmente as 24 Horas de Le Mans são dominadas pela Audi (que inclusive venceu a LMP1 deste ano), vale lembrar que a Porsche é, ainda hoje, a maior vencedora das 24 Horas de Le Mans.

Vale lembrar, também, do 917, um demônio devorador de asfalto com motor de 12 cilindros opostos e 4,5 litros de deslocamento (ahh, como a volta da Porsche podia ser sido com um Flat-12 de 5 litros!).


Para dar as boas vindas, a Audi, que domina Le Mans desde a saída da Porsche em 1999, fez o vídeo abaixo:


Apesar da hegemonia da Audi, mantida também neste ano, a volta da Porsche, que não usou um Flat-12 de 5 litros, não passou em branco.

A Porsche retornou a Le Mans com o 919 (referência ao 917 do passado, e ao 918, híbrido da marca atualmente em produção), um protótipo equipado com motor V4 híbrido de 2 litros turbo já apresentado nas 6 Horas de Silverstone em abril deste ano, pelo WEC.

Tivemos também o retorno de Mark Webber a Le Mans, que havia saído da categoria após um acidente com o carro da Mercedes em 1999.

(Mark Webber dando um backflip nervoso em Le Mans aos 7min e 45s)

Este ano, Mark Webber correu com o 919 #20 da Porsche, juntamente com Timo Bernhard e Brendon Hartley, classificando-se em 4º no grid de sábado.

A Porsche também marcou o 2º lugar do grid com o 919 #14 pilotado por Romain Dumas, Neel Jani e Marc Lieb.

Já iniciada a corrida, e ao final da 21ª hora da prova, o Audi R-18 e-Tron #1 deLucas di Grassi, Marc Gené e Tom Kristensen, teve que ir aos boxes para consertar um problema com o turbo, quando abriu espaço para o 919 #20 liderar a prova, no final do segundo terço da prova.

Há menos de 3 horas do fim da corrida, entretanto, o 919 #20 teve um problema com a bomba de óleo, abandonando a prova, e dando espaço para a Audi vencer, e com dobradinha...

E para parabenizar a equipe de Ingolstadt, a marca de Stuttgart fez o vídeo abaixo (em resposta ao vídeo de boas vindas da Audi), já deixando recado para 2015:


Pois é. Que venha a Le Mans de 2015!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Então é Natal...

É chegado o Natal, data cristã que celebra, além desse sentimento coletivo de gratidão, paz, amor fraterno e doação, o nascimento de Jesus Cristo.

No entanto, algo que poucas pessoas sabem, o Natal tem origem pagã.

São vários os elementos pagãos que foram incorporados pelo sincretismo católico no século IV, a grande maioria envolvendo a comemoração do solstício de inverno, que ocorre por volta do dia 22 ou 23 de dezembro no hemisfério norte da Europa.

Um que sempre se mantém fresco na minha memória, contudo, é o da mitologia viking e da adoração nórdica ao deus Wotan (ou Odin para os íntimos).

"O Bom Velhinho"


A “história do Natal” começa, porém, com Loki, um dos deuses aesires, e a construção de uma muralha em volta de Asgard, um dos nove mundos da mitologia viking.

A construção da muralha ao redor de Asgard havia sido encomendada pelos aesires a um pedreiro que havia se apresentado como Blast.

Caso a muralha fosse construída dentro de um prazo de 7 dias, o pagamento de Blast se daria por meio da mão de Freya, deusa do amor e da fertilidade.

Os aesires acreditavam que o prazo estabelecido era curto em demasia para que um humano qualquer pudesse construir a muralha, e, dessa forma, teriam a muralha construída de graça.

No entanto, Blast não era um humano, mas sim um gigante de pedra disfarçado, que também era auxiliado por um cavalo mágico.

A construção seguiu em tempo recorde, e os aesires estavam receosos de ter que oferecer a mão de Freya a Blast.

Assim, Loki se transformou em uma égua, a fim de distrair o cavalo mágico de Blast e impedir que o prazo fosse cumprido.

Sem a ajuda de seu cavalo, Blast não conseguiu cumprir o prazo estabelecido, e foi impedido de se casar com Freya. Enfurecido, revelou sua forma real de gigante de pedra, e foi expulso de Asgard pelos aesires.

Quando Loki retornou a Asgard, trouxe consigo seu filho, Sleipnir, um cavalo mágico de oito patas capaz de cavalgar por terra e água e voar pelos céus, que foi dado a Wotan como montaria.

E às vésperas do solstício de inverno, data que marca o início dessa estação no hemisfério norte, Wotan, montado em Sleipnir e percorrendo os céus, saía para sua última grande caçada do ano.

No retorno da caçada, Sleipnir, com fome e cansado, precisava fazer paradas, então às janelas das casas daqueles que acreditavam em Wotan, que deixavam torrões de açúcar em grossas meias para que não derretessem.

Tais gestos de adoração e de doação, eram retribuídos por Wotan com partes dos frutos de sua caçada em sinal de gratidão.

Independente da origem, se pagã ou cristã, e também independente da questão comercial, o natal, no entanto, ainda é uma data festiva de doação, de gratidão, de amor fraterno, do sentimento coletivo de transformação, de continuidade. O novo envelhece, o velho se renova, o verão que cede ao outono, que cede ao inverno, que cede à primavera, a unidade de todas as coisas.

Assim, qualquer que seja a origem ou a crença a respeito desta época, independente de presentes, de diferenças ou do quer que o seja, a todos um Feliz Natal, ou Yule, ou Channukah, ou apenas Feliz Solstício de Inverno (para nós do hemisfério sul, de verão)!

“Que seja feliz quem souber o que é o bem”

domingo, 6 de novembro de 2011

Samichlaus Bier 2011

Cerveja austríaca. Lager forte.
Bem forte!

Segundo a fabricante, essa cerveja é produzida uma única vez por ano, no dia 6 de dezembro, dia de São Nicolau (o próprio rótulo diz: "La bière du Père Noel"), passando por um processo de envelhecimento por dez meses antes de ser envazada.

Experimentei a "safra de 2011", cujo processo de fabricação deve ter se iniciado ano passado (2010).

Ao servir a cerveja, a primeira característica notada é que ela não forma o famoso "colarinho". Na verdade, é uma cerveja com pouquíssima concentração de gás.

No entanto, apesar do pouco gás, trata-se de uma cerveja "robusta", encorpada e cremosa, ainda que bem filtrada.

No copo, percebemos que a cerveja é bastante filtrada por sua coloração. É uma cerveja de tom escuro forte e bastante avermelhada, mas também bastante cristalina.

Tem um aroma bem forte, de doce torrado, como "calda de pudim".

Ao primeiro gole, a característica mais marcante de seu paladar é o tom adocicado, forte, como de caramelo. Por ser bastante densa, chega a ser quase licorosa.

Tem o teor alcólico bem forte também, de 14%, o que é bastante alto para uma lager (a Samichlaus Bier foi a lager com o maior teor alcólico que eu já tomei até hoje).

Aliás, não apenas o teor alcólico de 14% é alto para uma lager, mas também o período de envelhecimento de 10 meses, sendo que ambos devem ocorrer por conta da época e do local em que a cerveja é produzida.

Esse alto teor alcólico, inclusive, é o que não deixa o adocicado da cerveja se confundir com o adocicado do estilo Malzbier.

O teor alcólico destaca-se, também, no paladar. Junto com as notas adocicadas, o teor alcólico é uma característica que chama a atenção no sabor da cerveja, tendo um toque quase seco no final.

Aliás, o paladar, no final, traz notas muito interessantes. A cerveja tem um tom amadeirado, com um amargo torrado levemente picante.

Por ser adocicada e forte, pode ser um pouco enjoativa.

Só a encontrei em garrafas longneck de 330ml, o que é mais que suficiente para uma pessoa.

Acompanha bem doces, podendo ser servida sozinha ao final da refeição, como digestitivo.

Achei a cerveja muito adocicada no começo, sendo que o doce da cerveja se sobrepõe às demais notas, encobrindo boas características, como o amadeirado e o picante.

É uma cerveja feita para se tomar devagar, em goles lentos, e não muito gelada, sendo boa para o fim a que se propõe.

De zero a dez, nota 7 para a cerveja.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Somos Todos Humanos

O ex-presidente Lula está com câncer na laringe.

Essa notícia, no entanto, não é nenhuma grande novidade, ainda mais pra quem acompanhou as postagens das redes sociais deste domingo.

Hoje eu cansei de ver pessoas "recomendando" que o ex-presidente se tratasse no SUS. E a recomendação, em si, não teria nada de mais, não fosse a mórbida irônia indicando o sistema de saúde público.

Verdade, o SUS deveria ser eficiente, deveria atender bem a população, e o Lula não deveria ter problema nenhum em se tratar no SUS. O próprio Mário Covas se tratou no Hospital das Clínicas inúmeras vezes.

Mas o que me incomodou (aliás, me incomoda) é essa desumana satisfação das pessoas em se regojizar com a desgraça alheia. E não é uma desgraça pequena: é câncer!

Tenho muitas críticas ao ex-presidente, e certamente não sou o único nesse quesito. Mas daí a estender a crítica  a uma doença que põe em risco a vida de um ser humano? Até que ponto podemos nos dar a liberdade de tanto "senso de humor" (se é que estamos falando em humor)?

Mais uma vez, não estou defendendo o Lula, e nem quero que ele se transforme em um mártir ou nada do tipo. Aliás, pra isso mesmo é que se faz necessário separar a figura política do ser humano. A doença que o ex-presidente enfrenta agora em nada se relaciona com o seu governo.

Alguém se lembra de quando Muamar Kadafi foi capturado? Naquele dia, um amigo, ao chegar no escritório, contou-me a notícia que acabara de ouvir no rádio: Kadafi havia sido capturado com vida. Ao final do dia, ele já estava morto. A Internet está cheia de vídeos da sua captura. O que fizeram com Kadafi nos tornou mais desumanos.

Ainda que ninguém seja obrigado a se sensibilizar, não acho que a doença do Lula seja motivo para essa manifestação de, no mínimo, mau gosto.

Espero não perder minha decência e minha humanidade ao ponto de não prestar qualquer solidariedade a um ser humano que enfrenta uma doença como o câncer, independente das críticas que eu tenha contra essa pessoa.

Melhoras, ex-presidente.
Trate-se onde bem quiser.

sábado, 11 de setembro de 2010

Justiça do Trabalho nega vínculo entre pastor e igreja

Notícia meio antiga, mas eu fiquei sabendo só ontem.

O Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região negou provimento ao Recurso Ordinário que um pastor interpôs em face de uma sentença que julgou a improcedência de seu pedido de vínculo com uma entidade que reúne igrejas evangélicas de Santos - SP.

Vou colocar a fonte da notícia ao final para quem quiser ler a íntegra, mas vou me abster de detalhes muito técnicos (já dizia o poeta: "sou técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica").

Resumo da ópera: um certo pastor de uma igreja evangélica entrou na Justiça do Trabalho pedindo vínculo empregatício e as verbas decorrentes desse vínculo. O juízo de primeira instância julgou sua ação improcedente, de forma que o pastor recorreu da decisão, mas que foi mantida pelo Tribunal de segunda instância.

A notícia não diz o nome das partes (do pastor ou da igreja), mas é possível descobrir isso dando uma leve fuçada na Internet. Eu mesmo pensei que fosse uma determinada igreja no caso, mas não, é outra, ainda que bem parecida em seu ramo de atividades. É possível descobrir a íntegra da sentença e dos acórdãos também (houve oposição de Embargos de Declaração perante o Tribunal, que também já foram julgados).

Em síntese, o pastor alegou que sua relação com a igreja tinha todos os requisitos necessários para a configuração de um contrato de trabalho (que são a subordinação, a pessoalidade, a onerosidade, a habitualidade, bla bla bla), inclusive com controle de jornada e imposição de metas.

Já os argumentos que julgaram a improcedência dos pedidos do pastor foram que a lei permite a contribuição  previdenciária autônoma para padres e pastores, que o sacerdócio é uma vocação e não uma profissão, que a igreja não é uma relação comercial, de merchandising ou de vendas espirituais, mas sim uma opção de vida espiritual e de divulgação da fé.

No caso em tela, se as decisões foram corretas, se o pastor deveria ou não ter entrado com a reclamação, isso eu deixo pra Justiça decidir (aliás, já decidiu). Mas é isso que se deve esperar do sacerdócio? E o lado espiritual dessa "profissão", da função social das igrejas, elas se resumem a "metas"?

Sei lá. Não critico nenhuma religião. Mas o mundo anda bem estranho ultimamente... E 2012 está cada vez mais perto...

Amém.

Fonte: http://www.trt15.jus.br/noticias/noticias/not_20100909_01.html

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Motorola Disponibilizará Android 2.2 para o Milestone no Brasil

Acabei de receber um twit da @Motorola_BR dizendo que:
"Agora é oficial: Os usuários do Milestone no Brasil terão a atualização p/ o Android 2.2 e ela estará disponível no 1º trimestre de 2011"
Resumindo a ópera, a questão foi assim. Em seu site, a Motorola havia informado que não disponibilizaria o Android 2.2 para os aparelhos do modelo Milestone no Brasil, a despeito do que faria em outros países.

Assim, os pobres usuários brasileiros teriam que ficar com o Android 2.0, ainda que tivessem os mesmo aparelhos que los gringos.

Foi quando uma galera começou a criticar a Motorola, principalmente via Twitter, colocando a hashtag #moto_fail (ou alguma variante, não lembro - e nem vou pesquisar, fode-te ae, se quiser, clique aqui) nos trending topics.

Com isso, a Motorola deve ter visto que era furada não oferecer a atualização e voltou atrás, dizendo que iria avaliar a possibilidade de oferecer a atualização ao sistema operacional mais bacana já criado para celulares até hoje.

E agora parece que a "avaliação" foi positiva: o Android 2.2 vai sair para os usuários do Milestone no primeiro trimestre de 2011.

Só restou uma pergunta:
Prezada Motorola,
E quanto ao Dext? Não vai rolar uma atualização também, não?!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Tempo Perdido

Estava aqui revendo o journal, pensando no que publicar, e abri meus contos antigos pra ver se tinha algo "publicável".
Acabei encontrando esse conto, que eu estava há algum tempo (na verdade três anos) pra revisar e alterar algumas coisas (principalmente o nome dos envolvidos - galera ia me matar se eu publicasse com os nomes verdadeiros, hehe). A idéia era escrever algumas memórias do tempo da juventude (eu ainda sou jovem, é bom ressaltar) pra fazer parte de um compêndio que eu iria batizar de "O Bando do Velho Jack". Por enquanto, esse é o único conto d'O Bando.
É levemente baseado em fatos reais (razão pela qual eu tive que alterar alguns nomes), mas ainda assim É ficção...
E não, eu não sou homofóbico, antes que me venham com pedras (ainda mais hoje em dia que está na moda dar o... digo, ser homossexual).
Bom, o conto está aí. Enjoy it!


Tempo Perdido
Osvaldo Ken Kusano

“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo”
- Renato Russo

Os três ansiavam por sair daquele lugar e o fizeram o tão rápido quanto suas condições alcoólicas permitiam.

Jack foi o primeiro. Pagou em dinheiro. Tinha pouco dinheiro – dinheiro de verdade, em papel e moeda – mas esvaziar o parco volume da carteira compensava pela conquista de tempo em sua fuga.

Neto e Luiz Rogério, que preferiram pagar em cartão respectivamente por não ter dinheiro em espécie e por querer salvar a rara nota de cinqüenta que parava em suas mãos, ainda estavam dentro do estabelecimento quando Jack passou pelo "hostess".

Para Jack, a idéia de ter um "hostess" homem (ou razoavelmente homem, segundo a tradicional concepção da Santíssima Igreja Católica Apostólica Romana – uma das poucas coisas em que Jack concordava com a Igreja era o que se referia ao propósito da criação de Adão e Eva) era um tanto quanto estranha. Ter um "hostess" maquiado, de fraque justo e cartola, isso lhe ultrapassava os limites da bizarrice.

Mas aquele era um bar GLS, e Jack concordava com a sua pouca consciência politicamente correta que não podia criticar tão duramente o lugar pela escolha do seu público ou de seus empregados, ainda que houvesse por parar ali acidentalmente.

Começou, como sempre, no boteco. O bando, ainda que desfalcado, contava com Jack, Neto e Luiz, e a bebedeira rendera um bom passatempo por quatro horas de conversa jogada fora, muita cerveja, e uma única porção de batatas fritas, que era, para os três, o pouco alimento sólido ingerido desde o almoço de cada um.

Quando o assunto por fim parou de se repetir (o que acontecia depois que não havia mais nada de novo para se falar), Neto, num breve momento de lucidez, reavivou a conversa:

- Pô, hoje é aniversário da Lu, ela tá comemorando numa balada ali na Alameda Itu.

- Alameda Itu? Lá é pico de viado, cara! – Jack lembrou.

- Quem é Lu, Neto? – interrogou Luiz. Mas a lucidez de Neto, que nunca era o mais lúcido do bando, logo lhe fugiu.

- A Luciana, ela é firmeza, acho que o lugar é tranqüilo, pega nada de viado não.

- Não conheço essa Luciana, né?

- Acho que não, mas o Luiz conhece. Aquela, peitudinha, baixinha, cabelo castanho...

- Ah, já sei quem é! Ela não é sapata?

- Se é eu não sei, mas já bati umas bronhas pra ela.

A discussão seguiu em rodeios que sempre retornavam à questões como "Lá é pico de viado?" ou "Sabe se vai ter mulher?" ou ainda "Tem certeza que o goró não é caro?".

Mas ainda que Neto não tivesse certeza de nenhuma das respostas, sua vontade de arriscar alguma diversão naquela noite era mais forte do que sua sinceridade, e foi assim que os três foram parar ali.

Verdade que só tiveram certeza de que era um lugar freqüentado pelo público GLS na hora em que já estavam lá dentro, depois de terem se comprometido a pagar uma consumação mínima, descrita numa comanda impressa em preto e rosa, onde o "hostess" havia anotado o nome de cada um. E não gostaram daquilo.

Jack e Luiz compartilhavam um sentimento de traição. Sentiam-se enganados por Neto, que se não tivesse sido atraído por duas garotas que se beijavam ardentemente (e conseqüentemente se separado do bando para tentar se enturmar com as meninas), estaria sendo açoitado pelos dois.

Ficaram no local apenas o tempo suficiente para consumir as duas cervejas que já estavam incluídas na entrada, ir ao banheiro (e se aterrorizar com a idéia de "vending machines" de preservativos dentro do banheiro unissex, onde Jack urinou por todo o chão por ter ficado longe demais do vaso sanitário ao apoiar as costas na porta para que ninguém a abrisse), e ser bruscamente advertido que "não, não queremos a sua companhia e estamos muito bem sozinhas, então vaza, mané!".

Jack saiu e acendeu um cigarro. Esperava pelos amigos quando o "hostess" comentou:

- Nossa, o seu amigo é grande, né?

Ele se referia ao Luiz. Dois metros de altura, e com certeza menos de 90 quilos, o que, para a sua altura, já era pouco.

A altura desmedida, o jeito desengonçado e a forma física delgada eram vantagem para seus amigos, que facilmente o reconheciam em multidões e lhes davam criatividade o suficiente para criar apelidos como Boneco de Olinda, Boneco de Posto, Poste com Pernas, dentre outros. Naquele momento, para Jack, os atributos de Luiz pareciam uma ótima oportunidade para um alívio cômico em sua fuga.

Jack, ainda que evitando fazê-lo além do necessário, desafinou a voz e pendeu exageradamente o peso do corpo em uma das pernas, requebrando uma das nádegas:

- Grande? Hmpf! Você ainda não viu nada! – e afastou-se, tentando crer que a sua performance havia sido extremamente necessária, e que não voltaria a repeti-la jamais.

Quando Luiz, seguido por Neto, finalmente saiu do estabelecimento, o "hostess", que se lembrava do nome composto, sonoro e melodioso, do moreno alto e esbelto que ele vira naquela noite, e que viria a lhe povoar os sonhos nas noites a se seguir, indagou:

- Já vai, Luiz Rogério? – sua voz se fez soar sibilante, pausada e cantada. Mais tarde, Luiz não admitiria, mas se qualquer mulher lhe tivesse feito aquela pergunta, ele provavelmente teria abandonado o bando e a conduzido ao primeiro motel ou hotel que encontrasse.

Os dois retardatários se apressaram em entrar no carro de Jack, que foi atualizado sobre os fatos e pôde, juntamente com Neto, rir em voz alta e com todo o fôlego que lhe sobrava nos pulmões.

O que mais irritava Luiz não era a cantada em si, nem a gozação dos amigos, algo com o que já se acostumara. Era o jeito com que o "hostess" havia pronunciado seu segundo nome, fazendo o "G" soar como "Z"... "Luiz Rozério..." Aquilo sim o irritava.

"Fucking faggot", pensou. Mas então percebeu que "fucking" não era o melhor adjetivo para acompanhar "faggot", então tentou apagar aquilo do pensamento e enrubesceu.

- Preciso desenviadar.

- Desenviadar, que porra de palavra é essa? Isso nem existe! Ou você é viado, ou não é! – Jack ainda estava eufórico pela gozação do amigo que tentava mudar de assunto. Neto tinha apagado no banco de trás. Estavam andando à esmo.

- Desenviadar, cacete. Fiquei tempo demais naquela merda cheia de bicha. Preciso tirar a viadagem do corpo.

Jack, que também estivera lá, sabia o que Luiz queria dizer. "Luiz Rozério"... Aquilo era muito engraçado, mas, para Jack, a situação dos três era trágica. Ficou se imaginando se alguém os teria visto andando por aquela região.

- Sabe, você tem razão... – disse Jack enquanto pensava em lugares em que não se importaria de ser reconhecido.

- Eu sempre tenho.

- Acorda o Neto. Nós tamo indo pra zona!

E os três seguiram em direção ao centro da cidade, prontos para recompensar o tempo perdido.

MMVIII
Revisão MMX

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Vagas Para Ilustradores e Animadores

Eu acho muito massa o jeito que esse povo que mexe com criação faz anúncios de vagas.

Confira: http://bit.ly/c0kf2d

Qualquer dia desses, quando eu tiver meu escritório, vou anunciar "Procura-se advogado trabalhista que saiba soltar hadouken"

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Solstício de Inverno (ou The Times, They Are a Changin')

Um bocado de tempo sem postar nada por aqui, hu? Ando um pouco sem motivação pra escrever (ia falar "sem inspiração", mas isso soa meio gay), meio sem assunto, e por isso abandonei um pouco o journal.

Mas acontece que hoje, 21 de junho de 2010, é solstício de inverno, ou é, pelo menos, pra quem mora no hemisfério sul do planeta. E se isso não vale um texto novo, pelo menos vale a tentativa de voltar a escrever...

Teoricamente, o solstício de inverno dura apenas um breve momento (que foi por volta das 8:30 da manhã aqui no Brasil), mas o que ele significa é muito mais amplo que isso: o solstício de inverno é o momento em que o Sol se afasta o mais longe possível da Terra, começando a se aproximar novamente logo em seguida.


Acendi uma fogueirinha por aqui, em homenagem à data (o fato de eu ser piromaníaco é apenas um detalhe). Foi algo simbólico, pequenininha, só uns gravetos e um foguinho para manter a tradição.


(pena que eu só pensei em tirar a foto depois de contemplar a queima da fogueira, então peguei só o finzinho)

A fogueira representa a transformação, a mudança. O fogo chama o calor do Sol de volta e transforma aquilo que você "põe" na fogueira. Sentimentos, emoções, conquistas, coisas que se passaram. Ou coisas materiais para quem for mais piromaníaco que eu (olha só, até me ocorreu agora que é possível fazer um paralelo com a queima dos bonecos de Dharma, ou "daruma", do budismo japonês), ainda que eu acredite se tratar de um trabalho muito mais interno e pessoal que simplesmente material. É um bom momento para fazer um retrospecto do que se passou e pedir para que coisas melhores voltem com o recomeço do ciclo que virá após o inverno.

Houveram algumas incorporações dessas tradições pagãs pela Igreja Católica, até como forma de expandir seu domínio pelos povos não católicos. Afinal, fogueiras de festas juninas não são acesas apenas para neguinho queimar a bunda em dia de Santo Antônio... No hemisfério norte, temos o Natal, e como eu disse antes, é até possível fazer um comparativo com a queima dos darumas no budismo japonês (ok, mas eu não quero fugir do assunto, então, se você tiver curiosidade sobre isso, leia aqui).

Verdade que o solstício marca, para a astrologia, o começo do inverno, mas vale lembrar que em algumas culturas, as festividades dessa data duravam alguns dias (como o Yule viking). Mas as próprias estações do ano também possuem seus significados. O inverno é o fim do ciclo, que se reiniciará com a primavera.

Então, é isso. Feliz solstício de inverno para vocês.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Technology Issues

Eu admito que não sou um grande conhecedor de tecnologias, mas com certeza sou um grande entusiasta. E como grande entusiasta, por vezes eu acabo me aventurando em alguma empreitada tecnológica que vai um pouco mais além de comprar uma nova televisão (Pana LED, por favor - ok, piada interna, não tentem entender).

Exatamente por não ser um grande "tecnólogo", muitas das minhas aventuras acabam gerando boas dores de cabeça. E ainda bem que eu tenho muitos amigos tão ou mais entusiastas de novas tecnologias do que eu, mas que com certeza entendem muito mais dessas tecnologias do que este humilde aventureiro aqui. São eles que sempre me salvam e me socorrem quando tudo parece estar perdido, e quando eu quase chego a desconfiar ter jogado uma boa quantia de dinheiro fora por total incompetência em saber usar essas tecnologias (muito obrigado a vocês, que com certeza sabem quem são).

Minhas duas últimas aventuras tecnológicas, que na verdade precisam ser vistas como uma só (já que as planejei em conjunto, apesar de ter executado cada projeto separadamente - e bem separadamente), foram um HTPC e um NAS.

O HTPC em si deu bastante trabalho. É, basicamente, um computador, mas que eu queria que não tivesse cara de computador, fosse em sua parte física (hardware), fosse em sua parte virtual (software). A idéia era montar uma estação de mídia completa, com funções gerais de execução de fotos, música, vídeos, rádio, CD, DVD e Blu-Ray, tudo controlado por controle remoto, sem teclado ou mouse. Até que consegui um resultado bastante satisfatório, mas contando a pesquisa e compra das peças até a instalação final dos programas, levou pouco mais de uns seis meses pra eu terminar de montar a criança. Envolveu um pouco de eletrônica e até mesmo artesanato! Foi demorado, mas foi bem divertido (talvez não muito para os meus amigos gênio de TI, que tiveram a paciência bastante perturbada durante esse tempo).

Já o NAS... Bem, o NAS foi até que fácil (e rápido), mas bastante frustrante a princípio. Em teoria, o NAS funciona como um grande HD externo, ligado diretamente na rede, de forma que não depende que nenhum computador esteja ligado para que se possa acessar os arquivos nele (inclusive remotamente, pela Internet). O meu tem também umas portinhas USB, de forma que se pode ligar impressoras na rede, podendo imprimir documentos também sem precisar que um ou outro computador esteja ligado para a impressão. É algo sensacional se você pensar na era do sem-fio, e a idéia era usar em conjunto com o HTPC (que não tem HD, mas um modesto SSD de 60GBs).

A instalação do NAS é fácil. Não precisa de drivers, não precisa de softwares, quase todas as configurações podem ser feitas via navegador. Mas quando eu fui testar num dos notebooks, bom, aí começou a frustração. O computador em questão estava com o Windows 7 instalado, e uma pesquisa rápida no Google me disse que os eventuais problemas reportados com o modelo do meu NAS se dava com o Windows 7. Para melhorar, não encontrei uma resposta concreta em lugar nenhum.

Testei o NAS em outros computadores também. Um deles com o Windows Vista, e outro com o Windows XP. Nos dois, funcionou perfeitamente. Tudo que eu podia fazer em relação à configuração da rede, eu fiz. Até mesmo tentei alterar o sistema de segurança da rede, baixando a proteção de WPA2 para WPA e até pra WEP. Nada disso pareceu funcionar.

Fiquei um tempão nisso, sem conseguir fazer o NAS funcionar corretamente no meu computador, até que eu descobri que a problema era a velocidade de conexão. Não sei porque diabos o meu notebook não estava conectando à rede sem-fio numa velocidade razoável, e isso que acabava por interferir no acesso ao NAS. Bastante óbvio, mas eu demorei pra perceber. E depois demorei mais ainda pra arrumar (mudei o canal do wifi, posicionei o roteador num lugar melhor, mudei o sinal pra 801.11g, e testa e testa e testa, etc).

E por quê eu falei isso tudo? Sei lá, acho que não tinha nada melhor pra falar. Pode servir de ajuda também para quem eventualmente esteja sofrendo com o mesmo problema que eu. Sem nenhuma conclusão moral magnífica dessa vez... Talvez, apenas, que as pessoas não devam se aventurar com tecnologias que elas desconhecem - a não ser que tenham amigos que entendam do assunto, e que tenham muita paciência...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O Preço

Dei-me conta de que não havia publicado este conto por aqui ainda.
Por um bom tempo, tive muito ciúme dele, e por isso nunca o publiquei por aqui. Contudo, desde a metade do ano passado eu já estava disposto a colocá-lo aqui no journal.
Cheguei a cogitar um outro título. Pensei em tornar a idéia de uma raposa e de um daimiyo (do folclóre e cultura japonesa) mais clara, mas nunca encontrei nada que me agradasse. Enfim, o título nunca se alterou.
Para quem nunca o leu, o ciúmes não vem tanto da qualidade do conto. Na verdade, eu nem gosto tanto dele assim. Acho que a vontade e a idéia inicial do que eu queria expressar não bateram com o produto final, e isso são coisas que só os autores podem saber de verdade. Mas muita gente elogiou o texto, e por isso eu fiquei todo orgulhoso, como um pai cujo filho chega em primeiro lugar numa competição de natação...
De toda sorte, espero que gostem. Mais do que eu mesmo gostei.


O Preço
Osvaldo Ken Kusano

Sorveu um gole de um café escuro, forte, amargo. Deu um trago longo e profundo no cigarro, já no fim, até sentir o gosto do filtro queimado. Pendeu a cabeça para trás e fechou os olhos, ainda que não mais pudesse ver, mesmo com eles abertos.

- Então é isso. – disse afirmativamente, ainda que com ar de indagação. Jogou a bituca ao chão.

Do cobertor gasto, pulgas que lhe mordiam os tornozelos finos saltavam para o carpete puído e já quase sem pêlos, todo marcado pela velha cadeira de rodas.

- Se é o que você realmente deseja. – respondeu-lhe a jovem bem vestida, com a escuridão da noite presa em seu coque. Os delgados olhos verdes a fitar o homem à sua frente.

Era uma moça bonita. Tinha uma pálida e elegante beleza que fazia inveja à lua.

Fitava-o seriamente. Não com desdém. Não com raiva ou rancor. Seu rosto era apenas uma moldura vazia, uma tela em branco com um toque de sensualidade que faria qualquer homem se sentir incompleto em não poder ver.

- Desejo... – o pensamento poluído pelo ar viciado do pequeno apartamento lhe fugiu dos lábios finos e azulados.

- Meu único luxo, em todos esses anos, foi este apartamento. Nada mais.

- Muito justo para quem quis viver de amor.

- Amor? – disse tossindo – Amor não existe. Tudo é desejo e carne e fel. E agora a morte.

Fez que ia se levantar, uma última e única vez, mas desistiu.

- Suas pernas já foram mais fortes. Terras você já teve. Houve o tempo em que qualquer homem ou mulher se curvaria a você.

Procurou pelas mãos delicadas e bem cuidadas da jovem moça, que lhe passou o cigarro recém acendido. A bituca marcada com seu batom escarlate. Tragou-o, e a fumaça que vagarosamente expirou tomou som; palavras entre gemidos:

- Não me arrependo. Talvez por já fazer muito tempo, mas muito mais por passar a viver desde então.

- Queimaram seu castelo. Seus homens caíram em desgraça. Nunca mais falaram seu nome novamente.

- Eu já havia atravessado os mares. Com você. Era o que me bastava.

Fez uma pausa, aguardou a sirene que gritava na rua se afastar. Tomou fôlego e então, em meio aos barulhos da rua, prosseguiu:

- Bebi e gastei tudo que tinha. Você sempre ao meu lado. Guerras começaram e acabaram, mas tinha você sempre ao meu lado. Então eu envelheci, e você se foi.

- Eu tentei.

- Não. Você desistiu. Mas sempre voltou. Todo ano. E aqui está você.

- Eu me liguei a você. Por todos esses anos, nossas almas ainda estão ligadas. As pessoas chamam isso de...

- Amor? Amor não existe! – parou ofegante. Expirava dúvida.

- Muitos anos se foram. – disse a jovem, com um ar piedoso e cheio de dor.

O silêncio reinou por minutos, mas que pareciam horas. Quase não se ouvia a respiração de nenhum dos dois.

O velho, olhos fechados, estava caído em sua cadeira de rodas, como um corpo sem vida.

Abriu os olhos novamente, enxergando nada mais que a escuridão à sua frente.

A piedade da jovem se transformou, e os finos olhos verdes agora procuravam uma resposta no rosto enrugado e inexpressivo do homem sentado contra a janela. Ao longe, a lua observava a tudo, imponente no céu.

- Tem certeza? – indagou o velho.

- A velha bruxa do bairro oriental disse que funcionaria.

Esperou e assentiu com um menear da sua fronte calva.

A moça soltou seus cabelos negros e compridos, aproximou-se do velho, e beijou-lhe a face – Eu te amo.

- Tudo é desejo e carne e fel...

Aos poucos a cor lhe fugia da face. O contraste entre as madeixas da moça e a tez do homem se substituiu pelo vermelho do batom na branca face do velho.

E a lua, que invadia a janela com a candura de sua luz, olhava impiedosa para um velho homem e sua raposa ao colo.

MMVI
Revisão MMVIII
Revisão 2 MMIX

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Top Shelf é parcialmente comprada por produtora de cinema

Saiu hoje no Omelete.

A editora de quadrinhos norte-americana Top Shelf teve parte de suas ações compradas por uma produtora de filmes independentes.
A editora é responsável pela atual publicação de quadrinhos do Alan Moore (como A Liga Extraordinária) e outros autores indies em destaque, como Craig Thompson, autor de Retalhos.
Tratam-se apenas de duas pequenas empresas, mas não dá pra deixar de especular que, com isso, novos filmes baseados em quadrinhos surgirão por aí.
Parece que a maldição das adaptações continua a perseguir Alan Moore...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Quadrinhos: Séries Mensais vs. Graphic Novels

O site Omelete publicou ontem a notícia de que a DC Comics iniciará uma nova linha de quadrinhos para os personagens Batman e Superman com graphic novels sem periodicidade definida, ao contrário da estratégia comum dessas grandes editoras, que é publicar seus personagens mainstream com edições mensais de vinte-e-poucas páginas.

Vale a pena ler a notícia pra entender qual foi a discussão gerada.

Muitas editoras vêm acompanhando essa evolução do mercado, mas Joe Quesada, o editor-chefe da Marvel, é um dos que bate o pé para as graphic novels.

E isso só prova mais uma vez que ele é um grandessíssemo filho da puta. Seus principais argumentos contra o formato das graphic novels é de que as edições mensais fariam mais dinheiro que edições em capa dura, que as graphic novels receberiam menos marketing, que por causa disso os artistas teriam menos evidência no mercado, e que edições em graphic novels de baixa qualidade não venderiam, como acontece com as edições mensais.

Ok. Eu pessoalmente não gosto muito de mudanças, mas sei que elas acontecem independente da nossa vontade. E que bom que elas aconteçam para melhor, e não para pior. Sou a favor do formato graphic novel. Por mais paradoxal que isso possa parecer, eu acredito que elas sejam muito mais acessíveis. Primeiro, porque a sua distribuição é muito maior, são vendidas não apenas em bancas de revistas (ou comic shops como são chamadas lá fora), mas também em livrarias. Segundo, por causa do preço por páginas muito mais acessível (tirando da matemática, claro, as edições luxuosas cheias de extras vendidas em capa dura).

E sim, é verdade que uma graphic novel lançada em um único volume receberia muito menos marketing do que se lançada em diversos fascículos mensais, mas estamos falando de arte (a nona arte) ou de apenas mais um produto comercial barato?

É claro que obras de baixa qualidade, como a grande maioria dos quadrinhos produzidos hoje em dia, não sobreviveriam nesse mercado de graphic novels que vem se formando aos poucos. Mas será que a baixa qualidade dos quadrinhos de hoje em dia também não se deve em razão dos apertados prazos que os artistas precisam enfrentar? Aliás, o próprio Joe Quesada não conseguiu cumprir o prazo da última série de sua autoria que eu acompanhei ("Daredevil: Father"). Tsc tsc tsc...

Não que eu seja a favor da total extinção das edições mensais. Elas ainda são importantes para alimentar o mercado, criar novos leitores de quadrinhos, e são um bom meio de se promover novos artistas. Mas eu acho muito interessante que as grandes editoras passem a enxergar as graphic novels como uma ótima mídia, cheia de potencial, inclusive para os seus personagens mainstream, como é o caso do Batman e do Superman da DC Comics.

Graphic novels oferecem maior liberdade criativa para os seus autores, justamente por não colocar aquela pressão absurda dos prazos das edições mensais, dando oportunidade para que surjam obras com muito mais qualidade.

Lembrei de um bom exemplo, da época em que Neil Gaiman ainda era um ótimo autor (hoje ele é apenas um bom autor). "Signal to Noise" foi um trabalho dele com o artista Dave McKean, originalmente lançado com periodicidade mensal. O próprio Dave McKean disse que foi um feito quase impossível manter os prazos exigidos. Depois, quando a obra foi lançada em formato de graphic novel, compilada em uma única edição, Dave teve tempo de refazer algumas artes e aumentar o seu conteúdo original, trabalhando inclusive a própria temática do livro (o noise do título), o que não lhe foi possível quando da publicação mensal do livro. Ora, se nem mesmo a dupla Neil Gaiman e Dave McKean conseguiram manter a qualidade original desejada com os prazos de publicações mensais, o que dizer sobre os demais artistas?

É possível, aliás muito provável, que surjam edições em graphic novels com uma qualidade inferior, e que elas acabem sucumbindo no limbo, como disse o próprio Joe Quesada. Mas isso será apenas mais uma forma de impulsionar a qualidade das publicações pela própria exigência do mercado.

Além disso, por mais que o marketing gerado em cima dessas obras seja menor, a atenção da crítica dada às graphic novels sempre será muito maior, mais madura. Isso significa dizer que ainda que se faça menos propaganda sobre essas obras, essa propaganda terá abrangência muito maior, e não apenas concentrada num único público alvo. Queira ou não, a visão do mercado como um todo é sempre mais séria sobre uma graphic novel do que sobre edições mensais. Isso se dá até porque o que se espera de edições mensais é a mera continuidade de um periódico comum (e eu nem vou entrar no mérito dos ganchos baratos ou séries desconexas e sem sentido), enquanto uma graphic novel é vista como uma obra independente (ainda que não seja totalmente independente, como é o caso de The Walking Dead).

Sou super a favor dessa nova estratégia da DC Comics, e é uma pena que a Marvel não pense da mesma forma.

Joe, mudanças são inevitáveis, e é preciso ter maturidade e consciência o suficiente para aceitá-las e evoluir.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Post de Fim de Ano

Os passarinhos estão cantando e o Sol brilha lá fora.
Ah, sim, os cães também estão latindo, os vizinhos estão gritando, os carros estão fazendo mais barulho que o habitual, e parece que todos os ônibus e caminhões de São Paulo resolveram passar na rua da minha casa hoje.
Vale dizer que eu fui dormir tarde ontem (ou talvez seria mais correto dizer que eu fui dormir cedo hoje), meus olhos estão ardendo de tão secos, minha cabeça dói, e o mundo conspira para que eu sofra...
Eu também não cumpri minhas promessas do Ano Novo passado, e por causa disso, também não vou fazer promessa nenhuma para 2010.
Assim, por enquanto, eu NÃO desejo um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo pra ninguém.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Tucker Max is a newbie and I completely out beated him!

Talvez vocês já tenham ouvido falar de Tucker Max... Ou talvez não.
Tucker Max é um canalha, como ele mesmo diz. Advogado formado pela Chicago Duke, adora encher o cu de cachaça e mulher... E é mestre em fazer merdas...
(desculpem-me pelo linguajar, mas não tem como descrevê-lo de outra forma)
Começou com um blog onde ele contava as merdas que fazia, lançou um livro contando as mesmas coisas, e adaptou o livro para o cinema.
Mas Tucker Max caiu no ranking, e desde o final de semana passado ele não passa de uma menininha.
E chega!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Besouro

O primeiro longa-metragem do publicitário João Daniel Tikhomiroff, Besouro, está programado para estrear por aqui no próximo dia 30 de outubro, mas ontem eu pude conferir de ante-mão uma das (várias) pré-estréias que o filme vem utilizando para se lançar pelo Brasil. Agradecimentos ao Omelete pela oportunidade!

Já faz algum tempo que eu assisti ao trailer do filme. As cenas de ação me impressionaram, mas confesso que na época fiquei com medo de se tratar de um "O Tigre e o Dragão" com uma pseudo-capoeira. No entanto, eu tive uma boa surpresa ao assistir ao filme.




O filme começa com uma seqüência interminavelmente lenta de cartelas redundantemente narradas que nos coloca no tempo e espaço do filme: o Recôncavo Baiano na década de 20.

Antes do filme começar de fato, somos rapidamente apresentados aos personagens, ainda em sua infância, para então "decolarmos vôo" (literalmente) em direção à história.

A adaptação do livro "Feijoada no Paraíso" (Marcos Carvalho) nos conta a história do capoeirista Besouro (Aílton Carmo), que se culpa pela morte de seu Mestre Alípio (Macalé), e a sua transformação na lenda que carrega a missão de cumprir o trabalho iniciado por seu mestre, a libertação de seu povo, com a ajuda das forças místicas do candomblé.

Não se trata do melhor filme de ação que eu já assisti, mas ainda assim é um filme acima da média, ainda mais por se tratar de um filme nacional, que não possui muita (aliás, nenhuma) tradição nesse gênero.

O filme faz muito bom uso de alternância de narrações, utilizando por várias vezes a câmera em primeira pessoa, assim como o faz ao empregar a não-linearidade para contar a história, que contribui para o efeito dramático no final do filme (ah, sim, isso antes das cartelas narradas aparecerem novamente).

Vale destacar, também, a excelente fotografia do filme. Com ótimas composições, ajudou a destacar as cenas mais instrospectivas do protagonista, que combinadas com a ausência de falas, faz da fotografia do filme um brilho à parte.

A trilha sonora também é muito boa, fugindo do que seria esperado para esse tipo de filme: percussão e berimbaus. Causa até uma rápida surpresa ouvir quando Nação Zumbi toca pela primeira vez, mas a combinação é harmoniosa. Não tanto quanto a sua edição, que deixou a desejar com cortes excessivamente bruscos.

As cenas de ação, no entanto, são o grande ponto forte do filme, dignas de qualquer super produção estrangeira, e inéditas na história do cinema nacional. Mais importante ainda, mantiveram-se fiéis à arte da capoeira todo o tempo. O chinês Ku Huen Chiu (Kill Bill e O Tigre e O Dragão) foi o responsável pela coordenação das cenas de ação, o que pode explicar um pouco esse sucesso.

Como na maioria dos filmes de ação, o roteiro não se aprofunda em todas as tramas que abre. Há um óbvio relacionamento amoroso que poderia ter sido suprimido ou desenvolvido, mas que manteve-se "morno" demais. A supressão dessa trama amorosa, no entanto, resultaria no corte de uma das melhores cenas do filme, onde um jogo de capoeira se cruza com um jogo de sedução.

O filme deu novo destaque (ainda que sem muito aprofundamento) à capoeira e ao candomblé, o que não se tinha visto no cinema até então. E apesar do filme manter esses temas apenas na esfera estética, trabalhou-os muito bem. Desenvolver demais os temas do candomblé e da capoeira poderia fugir da "brasileiridade" do filme pra se tornar mero "folclorismo".

De zero a dez, nota 6 para o filme.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios

O último filme dirigido por Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds - EUA, 2009), estreou por aqui na última sexta-feira. No entanto, acabei conferindo o filme somente ontem, em pleno feriado de 12 de outubro (aliás, ótimo presente de dia das crianças que eu me dei).
O filme era aguardado para o dia 23 de outubro, mas em razão do Festival do Rio, teve sua estréia antecipada para o dia 9.




Ok, antes de mais nada, é melhor eu deixar claro que eu sou um grande admirador do trabalho do Tarantino, e depois de assistir Bastardos Inglórios, eu claramente percebi que sou cada vez mais fã de Tarantino. Então, por mais que eu tente ser neutro, a crítica abaixo não vai ser totalmente imparcial.

No filme, acompanhamos o tenente americano Aldo Rayne (interpretado por Brad Pitt) e seu grupo de soldados conhecido como Os Bastardos, em sua luta pela Europa contra os nazistas.

E o filme é excelente. Para quem conhece o trabalho de Quentin Tarantino e entende sua narrativa e seu estilo, que invariavelmente implica falar numa rapsódia de estilos, homenagens ao cinema e à cultura pop, e diálogos marcantes, tudo sempre devidamente acompanhado de sua ultra-violência (praticamente uma assinatura Tarantinesca), o filme é ainda melhor.

Bastardos Inglórios traz um bom roteiro, como geralmente são os roteiros assinados por Tarantino. E apesar de toda a mistura de estilos cinematográficos (que acaba criando o estilo único de Tarantino), não se trata de mais um Kill Bill, que não foi muito bem recebido no Brasil por causa de seu roteiro (na verdade, eu apontaria que a má recepção de Kill Bill no Brasil se deu por causa da pouca familiaridade do público brasileiro com os estilos que Tarantino incorporou no filme).

O filme é dividido em cinco capítulos, cada qual trazendo, de forma mais ou menos organizada, elementos dos estilos que ele incorpora em sua narrativa. Claro que o estilo de Tarantino se faz presente em todo o filme, mas podemos perceber uma tentativa de organização dos temas homenageados neste filme. Como logo no começo do filme (e eu adoro a forma que os créditos iniciais, bem como a narrativa, são apresentados nos filmes do Tarantino), onde já vemos, na música de abertura, uma clara homenagem ao western spaghetti que o diretor tanto gosta.

O título do filme, aliás, já é em si uma referência ao cinema italiano. Quando foi anunciado, especulou-se se Bastardos Inglórios seria uma refilmagem do filme homônimo de 1978. E não, não é. Outra especulação foi a respeito do título, que passou a se chamar Inglorious Basterds, e não Inglorious Bastards, como seria a grafia correta em inglês. E o motivo da troca das vogais no título logo se faz entender quando ouvimos o sotaque do personagem de Brad Pitt. Aliás, um dos melhores momentos do filme acontece graças à habilidade de Brad Pitt lidar com sotaques.

Outro personagem que merece grande destaque é o oficial nazista Hans Landa (interpretado por Christoph Waltz), essencial para o andamento e desfecho do filme. Um dos personagens mais ricos da trama, combinado com uma ótima atuação de Christoph Waltz.

Após testemunhar a execução de sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz), Shosanna (uma jovem judia interpretada por Mélanie Laurent) assume nova identidade como dona de um pequeno cinema na França. Nesse meio tempo, o tenente Aldo Rayne (Brad Pitt) espalha o terror entre os nazistas pela Europa.

É então, numa estréia de um filme nazista dentro do cinema da jovem Shosanna que todos os personagens se encontram, e acontece o grande desfecho do filme.

De zero a dez, nota 8 para o filme.

sábado, 10 de outubro de 2009

Sierra Nevada Pale Ale

Apesar de ser uma cerveja razoavelmente famosa pelos Estados Unidos, confesso que não conhecia essa cerveja ainda.
Experimentei a Sierra Nevada Pale Ale não faz muito tempo (eu até havia feito algumas notas sobre essa cerveja, e só não havia escrito nada a respeito dela ainda por... hmm... desleixo?), na minha última visita aos Estados Unidos, num pub do lado do hotel que fiquei em Nova Iorque.
Escolhi por exclusão, procurava alguma cerveja que batesse com o meu gosto pelas ales inglesas, mas queria também experimentar alguma cerveja nova, e apesar de ser uma cerveja americana (Californiana, para ser mais exato), foi a que eu acabei pedindo. Tomei em chopp, não em garrafa (aliás, breve adendo: o pint americano é bem menor que o pint britânico, então não espere aquele tomar aquele monte de cerveja nos Estados Unidos se você estiver acostumado com o segundo tipo de pint).
E confesso que não me arrependi. Não bateu exatamente com o meu gosto (na verdade, eu procurava por uma cerveja bem diferente da Sierra Nevada), mas foi uma surpresa bastante agradável, e é uma cerveja que eu com certeza voltaria a tomar se a encontrasse novamente.
Possui o corpo bastante feminino, levemente adocicada, com notas de amargor bem leves no final do gole. Apesar do teor alcólico ser um pouco superior ao de uma light lager comum (o teor alcólico da Sierra Nevada é de 5,6%), ainda assim é uma cerveja leve e suave.
Não é uma cerveja de aroma forte, quase não possui bouquet, mas um olfato mais atento é capaz de perceber um aroma levemente floral, quase imperceptível. De toda sorte, tem o aroma muito fraco, de forma que não possui bouquet digno de qualquer avaliação.
É uma cerveja bem filtrada também (o que não é necessariamente uma característica positiva), o que talvez faça com que ela se torne tão leve. Essa característica, somada ao fato de ser uma cerveja com gaseificação bastante elevada, faz com que ela lembre levemente uma cerveja lager, apesar de ser uma pale ale.
A coloração é levemente avermelhada, mas de tom bem fraco, provavelmente em razão da forte filtragem.
Em razão da gaseificação elevada, por ser uma cerveja bem filtrada, pela coloração e ausência de aroma, suspeito que não seja uma cerveja 100% malte, mas admito que não é uma cerveja em que se perceba a presença de agentes de fermentação em seu paladar.
Aliás, o paladar da cerveja é muito bom. A Sierra Nevada não possui apenas agentes de fermentação, mas é bastante rica em agentes de sabor também. É uma cerveja que agrada o paladar sem chamar atenção. Cítrica, com acidez elevada, mas não além do limite ideal, levemente adocicada, com notas apimentadas e um aroma bem suave que quase chega em notas florais. Não consegui identificar o que a torna cítrica, já que não é adocicada o suficiente para ser laranja ou bergamota (definitivamente, não é laranja ou bergamota).
Não posso dizer ao certo, mas acredito ter notas de canela, pinho, e limão. Em conversas de bar, alguns moradores locais me disseram que não é limão, mas grapefruit. Eu, no entanto, nunca tomei cerveja com grapefruit (essa, aliás, é uma fruta que não gosto muito), e os locais com quem eu conversei eram de Nova Iorque, e não da Califórnia, de forma que eu ainda acredito ser limão, e não grapefruit.
É uma cerveja bem distinta, de destaque.

De zero a dez, nota 6,5 para a cerveja.

sábado, 26 de setembro de 2009

At the city that never sleeps...

Rapidinha pra gastar tempo ocioso.
Jet lag plus insomnia plus tired to the bones... Meus olhos nao
lubrificam mais sozinhos, meus ombros doem...
Mas eu estou curtindo!
I'm still having fun and I guess that's the key
I'm a twentysomething and I'll keep being me...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Take Love Easy...

Saiu por aqui esses dias o disco "Take Love Easy", terceiro trabalho de estúdio de Sophie Milman, cantora de jazz russa que reside no Canadá desde o começo dos anos 90.

(ok, está nas lojas desde junho, mas só agora eu comprei o CD...)



E o seu último álbum está excelente. Seguindo o próprio nome dado ao álbum, Sophie traz um trabalho suave, bem easy, com um jazz gostoso de se ouvir que por várias vezes mescla elementos do samba e da bossa nova brasileira.

Destaque, aliás, para a faixa "Triste", música composta originalmente por Tom Jobim, e que já fez sucesso na voz de Elis Regina.

Mas Sophie Milman não se deixa intimidar pelos nomes que já gravaram versões das músicas que compõem seu último álbum. Exemplo disso é a faixa "Take Love Easy", que já foi gravada por ninguém mais ninguém menos que Ella Fitzgerald, ou de outros clássicos do jazz, como "I Concentrate On You", "Day In, Day Out", "Love For Sale", e "Where Do You Start?".

Além disso, Sophie também faz versões de músicas de outros ritmos, trazendo-os para o jazz, como é o caso de "Be Cool", de Joni Mitchell, "I'm on Fire", do Bruce Springsteen, e "50 Ways to Leave Your Lover", de Paul Simon.

Tudo isso com segurança e leveza, fazendo do seu último disco um trabalho coeso e homogêneo, apesar dos muitos elementos diferentes incorporados. Um ótimo álbum de jazz que eu recomendo a todos que gostem do estilo.



E como a moda agora é que os artistas divulguem suas músicas pela Internet, este álbum pode ser conferido, na íntegra, no site da cantora: www.sophiemilman.com.

Não é possível, no entanto, fazer o download das faixas, e também não se sabe até quando vai estar disponível na Internet.